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Esquistossomose Mansônica: estudo agrega novos parâmetros e valoriza o US Doppler - 22/11/2010
Fonte: Jornal Interação Diagnóstica - Dez 2009 / Jan 2010, nº 53, p. 18
"Avaliação ultrassonográfica e dopplervelocimétrica da esquistossomose mansônica: estudo de campo em áreas de baixa, média e alta endemicidades", é o tema do trabalho, que teve como orientador o prof. Giovanni Guido Cerri, idealizador da técnica utiliza a ultrassonografia no diagnóstico da esquistossomose. Graduada pela Faculdade de Medicina da UFMG, ma doutora ainda atua na mesma instituição como médica assistente e preceptora da Residência em Radiologia. Sua especialização em ultrassonografia geral foi realizada em São Paulo no InRad e no Hospital Sírio Libanês. Também é membro titular do Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem. Em entrevista ao ID - Interação Diagnóstica, a Dra. Letícia Martins Azeredo contou com detalhes como foi desenvolvida sua pesquisa: ID - O que levou a escolher este tema? Dra. Letícia Martins Azeredo - A esquistossomose tem no Brasil e no mundo a segunda maior prevalência dentre as doenças tropicais, perdendo apenas para a malária. Acomete atualmente cerca de 6 milhões de brasileiros, em uma área endêmica que abrange 19 estados. Apesar de baixa taxa de mortalidade, a sua morbidade tem forte impacto econômico, incapacitando para o trabalho milhares de pessoas na faixa etária produtiva. Meu interesse pelo estudo da esquistossomose surgiu pela admiração e pela vontade de dar continuidade ao trabalho do meu pai, Amilcar Vianna Martins. Professor emérito da UFMG e consultor da OMS, dedicou toda sua vida ao ensino e à pesquisa das doenças tropicais. Outro fator decisivo na escolha do tema foi o respeito pelo trabalho do meu orientador Prof. Giovanni Cerri, com quem fiz especialização em ultrassonografia. Por feliz coincidência, o Prof. Giovanni é autor do mais importante estu8do ultrassonográfico da esquistossomose, referência da OMS. Para viabilizar as pesquisas de campo, contei com o apoio fundamental do Prof. Lambertucci, professor titular da UFMG e coordenador de um dos mais conceituados núcleos de pesquisa em esquistossomose. ID - Como foi feita a seleção dos pacientes, já que a quantidade é bem expressiva? Dra. Letícia Martins Azeredo - Por se tratar de um estudo descritivo, nosso trabalho objetivou examinar o maior número possível de pacientes. A infecção pelo S. Mansoni comprovada por exame parasitológico de fezes foi o único critério de inclusão adotado. A pesquisa de campo foi realizada em três áreas que, de acordo com critérios da Organização Mundial de Saúde, foram classificadas como de baixa, média e alta endemicidades para esquistossomose mansônica. Nas áreas de baixa e média endemicidades, foram convidados a participar deo estudo todos os infectados identificados em inquérito coproscópio. Como na área de alta endemicidade o número de infectados era muito grande (mais de 2.000 pacientes), foi selecionada uma amostra composta por indivíduos assintomáticos e indivíduos com sinais clínicos da doença. Assim, 579 pacientes foram examinados nas três áreas. Permaneceram no estudo 554 pacientes, já que 25 foram excluídos por apresentarem outras hepatopatias crônicas não esquistossomáticas ou por terem sido submetidos à esplenectomia. ID - O que levou a optar pelo uso do ultrassom Doppler? Dra. Letícia Martins Azeredo - A partir da primeira descrição ultrassonográfica da fibrose periportal feita por Abdel-Laif e Abdel-Wahab em 1978 e da tese de doutoramento do Prof. Giovanni Cerri em 1984 que relata os sinais ultrassonográficos específicos da doença, a ultrassonografia representou um marco no diagnóstico da esquistossomose. Vários estudos demonstraram que o exame ultrassonográfico é superior ao exame clínico na avaliação da morbidade da doença. O desenvolvimento dos equipamentos portáteis ampliou a aplicação da ultrassonografia para estudos populacionais. Atualmente, o método tem sido amplamente utilizado em áreas endêmicas de todo o mundo, principalmente no estudo da morbidade e na avaliação da eficácia dos tratamentos em massa, sendo seu uso recomendado pela Organização Mundial de Saúde. No nosso trabalho utilizamos equipamentos portáteis cedidos pela GE Healthcare, modelos GE Logiq-Book 100 para o exame modo B e GE Logiq-Book para o estudo Doppler. Gostaria de ressaltar que apesar das condições adversas e da estrutura precária, o estudo transcorreu sem grandes contratempos. Uma preocupação constante nas áreas de média e alta endemicidades (Minasd Gerais e Bahia) foi com a possibilidade de superaquecimento dos equipamentos, uma vez que não havia refrigeração ambiente e as temperaturas locais eram bem altas. Isto foi contornado com o uso de ventiladores direcionados para os aparelhos que, apesar de permanecerem ligados por mais de doze horas consecutivas, não apresentaram problemas. ID - A utilização do Doppler veio apenas para confirmar o diagnóstico? Dra. Letícia Martins Azeredo - O Doppler agrega informações importantes ao exame ultrassonográfico convencionalpossibilitando o acesso não-invasivo aos aspectos hemodinâmicos da circulação portal. Nosso trabalho, o primeiro a utilizar US - Doppler em estudos de campo na esquistossomose mansônica e a avaliar três áreas com níveis distintos de endemicidade, buscou identificar as alterações hemodinâmicas do sistema portal nos vários estágios da doença. Através dos dados dopplervelocimétricos dos vasos do sistema esplâncnico, foi possível determinas as alterações e a participação de cada um destes vasos no processo patogênico esquistossomótico. Além disso, nossos resultados confimaram a alta acurácia do Doppler no diagnóstico da circulação colateral e da trombose portal. ID - Comentários que julgar necessários Dra. Letícia Martins Azeredo - Nosso trabalho foi parte integrante de projetos relacionados à esquistossomose mansônica que envolveram além da Faculdade de Medicina da USP (programas de pós-graduação em Radiologia e em Doenças Infecciosas Parasitárias), a Faculdade de Medicina da UFMG - FMUFMG (programa de pós-graduação em Infectologia e Medicina Tropical) e a Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro - FMTM (programa de pós-graduação em Medicina Tropical e Infectologia). As pesquisas de campo contaram com a participação de dezenas de colaboradores e foram coordenadas pelo Prof. José Roberto Lambertucci e Prof. Carlos Maurício Antunes da FMUFMG e pelo Prof. Aluizio Prata da FMTM. Gostaria de registrar meus agradecimentos a estes professores, a todos os colaboradores, ao meu orientador Prof. Giovanni Cerri e à GE Healthcare. |
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